O instrumentista Maurício Lopes, de 47 anos, nasceu em Ibirapuã mas passou toda sua infância e parte da vida adulta na cidade de Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia.
Com pouco estudo, o artista precisou deixar a escola aos 10 anos de idade após a morte de seu pai, que já estava acamado há alguns anos. De família pobre e com muitos irmãos, por ser o menino mais velho precisou se tornar arrimo de família e ajudar a mãe a manter as despesas da casa, foi assim que o artista trocou a caneta pela enxada, em trabalhos na zona rural, começando posteriormente a sua trajetória como ajudante de pedreiro, sem abandonar o gosto pelo violão no meio do percurso.
Na adolescência já era muito querido pelos membros da igreja que frequentava, sobretudo pelos consertos que fazia nos instrumentos do templo, quando ainda nem imaginava sua aptidão para a luthieria. A paixão pela música e pelo violão nasceu da curiosidade do então garoto de 15 anos, que fazia da arte uma maneira de contribuir com a comunidade.
Anos depois, Maurício decidiu se aventurar no mundo da música gravando os seus primeiros dois álbuns de música gospel, com belíssimas composições autorais. No entanto, devido às dificuldades enfrentadas em sua carreira, o artista se mudou com a esposa e as filhas para Belo Horizonte no ano de 2003, com o objetivo de investir no ramo. Com o passar do tempo e com a ausência de oportunidades, passando por muitas dificuldades em casa, Maurício deixou de lado a carreira de músico, se dedicando quase que exclusivamente à sua profissão de pedreiro.
Fã de carteirinha de Eduardo Costa, desde o início da sua carreira, e enfrentando o diagnóstico de síndrome do pânico, Maurício decidiu relembrar a época da adolescência, para realizar o seu sonho de conhecer o cantor. Foi assim que o ex-pedreiro encontrou na luthieria uma verdadeira terapia, e utilizou do ofício para presenteá-lo com um instrumento.
Como é descrito pelas filhas, o “sonhador”, passou a investir esforços para aprender a fabricar o instrumento, mesmo com pouquíssimo estudo e contra as expectativas de todos, se apoiando apenas na esposa e nas filhas, Maurício passou a investir as horas vagas da sua intensa rotina de trabalho para compreender a arte da luthieria.
Foi nesse momento que Maurício contou com a ajuda de um luthier da região, com quem encomendou a sua primeira viola. Participando ativamente do processo de fabricação do instrumento, o artista decidiu montar a sua própria oficina, com o objetivo de fabricar apenas um instrumento, que em seu desejo seria entregue ao cantor.
Após aprimorar suas técnicas e iniciar seu primeiro instrumento artesanal, Maurício deu início à saga de realizar seu sonho de ficar cara a cara com o cantor. Após muitas tentativas e já desistindo do seu sonho, cruza seu caminho a dupla Ângelo e Angel, a quem, sem nenhuma pretensão, foi entregue o primeiro instrumento da MarLops, sem imaginar que aquela seria a porta que o levaria para a realização do seu sonho.
A dupla sertaneja, encantada pelo talento de Maurício, decidiu abrir os caminhos para que o encontro fosse possível. No primeiro encontro do luthier com Eduardo Costa, o cantor se mostrou encantado com a qualidade do trabalho e ali mesmo testou a habilidade de Maurício, solicitando a fabricação de um novo instrumento, o Requinto.
O Requinto era o instrumento dos sonhos do cantor. De origem espanhola, o violão consiste em uma composição que promove notas mais agudas, devido a seu design arrojado e escala diferenciada dos violões comuns. Assim, Eduardo Costa fez uma live ao lado do teixeirense, rendendo elogios ao instrumento. Na live, o cantor relatou que já havia encomendado o instrumento com vários artistas do Brasil, mas que nenhum conseguiu chegar próximo da qualidade de som que pretendia.
“O nome desse instrumento é requinto, não se acha aqui no Brasil, eu tô igual pinto no lixo por ter conseguido. Veio um cara aqui, com uma cara de ‘manezão’, esse cara fez uma viola pra mim que não tinha condição a qualidade da viola, e agora esse cara me trouxe essa obra de arte, que desenvolvi junto com ele. Esse cara aqui é um dos maiores artistas que eu já conheci na minha vida, e ele não tá me pagando nada pra eu dizer isso.”, relatou o sertanejo em suas redes sociais.
A partir daí se tornou rotina a entrega de instrumentos ao artista. Hoje Maurício conta com dezenas de violões e violas na coleção particular do cantor, sendo inclusive o responsável pela manutenção de outros instrumentos do acervo, e chamou a atenção de artistas como Zezé di Camargo, Gusttavo Lima, César Menotti, Léo Nascimento e Leandro Voz.
Hoje, o luthier teixeirense tem instrumentos espalhados ao redor do Brasil e fora dele, com violões em várias cidades dos Estados Unidos, dentre outros países, demonstrando que mesmo contra todas as expectativas, com muita luta e dedicação, é possível conquistar seus sonhos.
